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VELHO OESTE













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A verdadeira historia do VELHO OESTE

Oeste, qualquer pais tem; Velho Oeste, so os Estados Unidos da America do Norte. Quando se fala em Velho Oeste, ate chineses e laponios pensam imediatamente em Tombstone, Santa Fe e outras cidades mitificadas pela maior saga dos tempos modernos: a conquista do vasto territorio que se estende do Mississippi ao Oceano Pacifico e das planicies na fronteira com o Canada ao Rio Grande. O Velho Oeste e um continente de rios caudalosos e imensos desertos, canyons profundos e impenetraveis montanhas, pradarias infinitas e interminaveis florestas, "um novo Eden", no verso de Walt Whitman, a terra de promissao, na prosa de Owen Wister e tantos outros Homeros do tempo das diligencias. O Velho Oeste foi o Genese dos americanos, sua Iliada, sua Odisseia, sua Tavola Redonda.

Sabemos mais sobre ele e seus mitos do que sobre a nossa propria gesta, anomalia que, de resto, nao e so nossa, mas tambem de povos jingoistas como os alemaes, por exemplo, cujo fascinio por indios e caubois americanos, incutido pelos romances de Karl May, confirmei pessoalmente durante uma peregrinacao aos campos santos de navajos, apaches, comanches e outros peles-vermelhas, 11 anos atras. A partir da proxima segunda-feira, ficaremos sabendo mais ainda. Nao por intermedio de algum ciclo de westerns do Telecine Classic, mas gracas a um documentario em seis capitulos, programado pelo GNT. Um documentario sobre o Velho Oeste de verdade.

Produzido em oito capitulos por Ken Burns (conhecido entre nos pela serie Jazz, recem-exibida pelo GNT) e dirigido por Stephen Ives, O Oeste (The West) saiu de uma costela de Civil War - ambicioso documentario sobre a Guerra Civil americana, realizado pela dupla em 1990 - e foi levado ar pela rede de TV publica PBS, em setembro de 1996. Mesmo na versao reduzida para o mercado internacional, nao e programa para qualquer aficcionado de bangue-bangue. Serio, minucioso e abrangente, muitas vezes abordando gente e episodios desconhecidos e de minguada empatia para a maioria dos brasileiros, em nenhum momento se apoia em referenciais do imaginario. Nada de Zane Grey e John Ford, Fredric Remington e Bronco Piller.

Do cinema, Burns aproveitou somente as vozes de Peter Coyote (que narra a serie e foi uma escolha perfeita, pois seu timbre lembra bastante o de Henry Fonda), Matthew Broderick, Gary Sinise, John Lithgow e os veteranos Eli Wallach, Julie Harris e Jason Robards, entre outros. Tambem desprezou figuras e eventos por demais explorados, como Wyatt Earp, Kit Carson, Billy the Kid e o duelo no Corral O.K., abrindo uma excecao para o cauboi, cacador de bufalos e showman William "Buffalo Bill" Cody (1846-1917), por tudo que fez, disse que fez e, sobretudo, porque sua fanfarronice ganhou a irresistivel posteridade do celuloide.

Quando comecei minha jornada pelo Velho Oeste acabara de chegar as bancas uma edicao da U.S. News & World Report, cuja materia de capa nao podia ser mais oportuna: "Como o Oeste foi realmente conquistado." Depois de a ler, minha percepcao daquelas paragens, que ja nao era das mais inocentes, se transfigurou. As paisagens sao deslumbrantes, mas o que nelas de fato aconteceu, notadamente a partir do inicio do seculo 19, nao bate com a visao idilica do Oeste como uma Canaa para quem queria fugir dos "males europeus", da corrupcao, da ganancia, da mesquinharia, da falta de solidariedade e demais impurezas metropolitanas.

Revendo sua evolucao atraves de novos documentos, como cartas, diarios e outras formas de testemunho ocular, os historiadores Donald Worster, Richard White (um dos entrevistados pela serie), Lillian Schissel, Howard Lamar (que sabe tudo sobre a dizimao dos bufalos por ecocidas brancos) e Philip Durham (expert na presenca do negro na conquista do Oeste) constataram que o Velho Oeste foi, desde o inicio, dominado pelo poder do dinheiro e da maquina governamental, e um fertil rincao para a ambicao desmedida, a roubalheira infrene e homicida, a pilhagem ambiental, o odio racial, a fragmentacao familiar e a desigualdade social. Folclorizado como um Lancelot de esporas, um Apolo do Novo Mundo montado em Pegasos trazidos pelos espanhois, prototipo de um novo homem, inquieto e independente, forte, otimista, destemido e trabalhador, o caubi tipico, na verdade, nao passava de um sujeito de baixa estatura e pouco peso, que ganhava uma miseria e era dono apenas de sua sela, um bronco desbocado, ensimesmado, egosta e beberrao, "impaciente com as leis, irresponsavel, violento e grosseirao", para usar os qualificativos do romancista Wallace Stegner, o oposto de Zane Grey e Karl May (que, alias, nunca pos os pes em territorio americano).

Burns e Ives, que tiveram o estalo da serie durante uma conversa com o poeta kiowa N. Scott Momaday, de quem colheram otimas observacoes, investigaram todos os arquivos e teses disponiveis, gravaram 72 entrevistas e percorreram com suas cameras 170 mil km. Quando se trancaram na ilha de edicao, tinham mais de 250 horas de imagens. Por acreditarem que a historia nada mais e do que uma soma de biografias, concentraram-se nas experiencias de determinados homens e mulheres, revividas atraves de relatos por eles deixados nos mais diversos tipos de documentos. Selecionaram os que melhor podiam iluminar um periodo ou uma faceta da conquista do Oeste e demonstrar quanto de vidas humanas foi sacrificado para que a America pudesse tornar-se uma nacao continental.

O Oeste comeca por onde tudo comecou: com os indios Anasazi, ha seculos extintos, e os primeiros brancos a pisarem aquelas terras, os espanhois que em 1528, chefiados por Alvar Nunez Cabeza de Vaca, foram levados por um furaco ate os costados da ilha de Galveston, onde hoje fica o Texas. Outro conquistador da epoca anotou em seu diario: "Aqui viemos para servir a Deus e Sua Majestade, para trazer a luz aqueles que vivem nas trevas, e para enriquecer, como e desejo de todos homens." So a majestade mudou, nos seculos seguintes, substituida por outras sem sangue azul. Deus continuou sendo o mesmo, embora nao se possa acreditar em sua convivencia com tudo aquilo que fez da historia do Oeste americano uma das mais brutais de todos os tempos. E desde sua aurora marcada por pilhagens, genocidios e epidemias de "civilizadas" doencas, tais como variola, sarampo, tuberculose e difteria, desconhecidas no mundo "barbaro".

Nada, aparentemente, ficou de fora: a guerra fratricida entre as diversas nacoes indigenas, o holocausto dos peles-vermelhas infligido por caras-palidas de variada procedencia, a dizimacao dos bufalos por cacadores inescrupulosos (3 milhoes em dois anos) e nao sustada pelo presidente Ulysses S. Grant, a truculenta anexacao de territorios mexicanos a tutela americana (providenciada pelo belicista James Polk), o fundamental avanco das ferrovias rumo ao Pacifico (ate 1865, os trens so iam ate o Missouri), a abjecao escravista e a Guerra de Secessao, a corrida do ouro na California, o impune banditismo de William Quantrill e outros celerados a servico dos baroes de terra e gado.

Em meio a tanta ignominia, um pequeno oasis de santos e martires, de pele branca, vermelha, negra e amarela, estes, sim, os verdadeiros herois do Velho Oeste. O cacique Cavalo Doido (Crazy Horse), por exemplo, que a frente de guerreiros sioux e cheyennes acabou com a raca do arrogante general George Armstrong, na batalha de Little Big Horn, em 1876. E o nao menos legendario Touro Sentado (Sitting Bull), que resistiu brava e inflexivelmente as mentirosas promessas dos militares e presidentes brancos e terminou seus dias como figurante dos shows de Buffalo Bill, representando o seu proprio papel. Entre os caras-palidas, nenhum talvez se iguale ao utopico reverendo Charles H. Lovejoy, que deixou a mansidao de New Hampshire para tentar fazer do Kansas um territorio livre de escravos e racismo. Pena que os americanos sempre tenham preferido cultuar outros derrotados, como os 146 voluntarios que perderam a vida defendendo a missao do Alamo, em San Antonio (Texas), do Exercito mexicano, em marco de 1836. Sobretudo porque nem todos os seus baluartes foram de fato os herois que o folclore patrioteiro e Hollywood perpetuaram.

Em 1978, de posse de inedita papelada sobre o episodio, Dan Kilgore publicou um ensaio, How Did Davy Die? (Como Davy morreu?), segundo o qual Davy Crockett nao passava de um turista em transito por San Antonio e teria morrido, "heroicamente", escondido debaixo de uma cama. Indignados, muitos texanos ameacaram esfolar vivo o historiador, xingaram-no de comunista e coisas piores - se e que ha coisa pior, para um texano quatrocentao, do que um comunista - mas nao conseguiram provas mais convincentes do destemor de Crockett que as cenas de John Wayne no filme O Alamo.

Nada disso e tratado na serie de Burns e Ives. Que, por sinal, so teria a ganhar com uma coda dedicada ao papel do imaginario e da musica country na construcao e perpetuacao do mito do Velho Oeste.